Flatulência: um tabu social entre a biologia e a convivência
A flatulência é um processo natural, universal e inevitável do corpo humano. No entanto, apesar de sua normalidade biológica, ela frequentemente provoca um constrangimento social intenso, quase cômico. Esse embate entre as necessidades do “corpo cru” e as rígidas convenções da civilização é o que torna o tema um verdadeiro tabu.
O que a ciência diz: por que produzimos gases?
Ao contrário do que dita o senso comum, soltar gases é um sinal de que o seu corpo está funcionando corretamente. Segundo a Dra. Vera Ângelo, gastroenterologista e doutora em patologia pela UFMG, a flatulência indica que a sua microbiota intestinal está ativa, digerindo o que o estômago e o intestino delgado não conseguiram processar.
De acordo com a especialista, os gases provêm de duas fontes principais:
Aerofagia: O ar que engolimos ao comer rápido demais, falar enquanto mastigamos, mascar chicletes ou beber com canudos.
Fermentação Bacteriana: Ocorre no intestino grosso, onde bactérias processam carboidratos não absorvidos (como fibras e amidos resistentes).
A química do odor
A composição da maior parte dos gases é inodora (hidrogênio, metano e dióxido de carbono). O cheiro forte, muitas vezes comparado a “ovo podre”, vem dos compostos sulfurados. A Dra. Vera ressalta que dietas ricas em enxofre — que incluem ovos, alho, cebola, brócolis, carnes vermelhas e leguminosas como feijão e lentilha — aumentam drasticamente o odor.
O Tabu Social: Uma “falha de performance”
Se é biologicamente normal, por que nos sentimos tão mal quando acontece em público? O Prof. Claudio Paixão, doutor em psicologia social e professor da UFMG, explica que o peido é o símbolo perfeito da animalidade que tentamos esconder sob o “verniz social”.
Citando o sociólogo Erving Goffman, o professor afirma que a flatulência em público é vista como uma “falha de performance social”. Ao longo da história da civilização ocidental, funções corporais consideradas “animais” (como urinar, defecar e arrotar) foram relegadas ao espaço privado.
“A liberdade de expressar funções corporais naturais colide com o limite da convivência: o cheiro ou o som invadem o espaço sensorial alheio”, ressalta o Prof. Claudio Paixão.
O peso desigual para as mulheres
O tabu é ainda mais rigoroso para o público feminino. Historicamente, o corpo da mulher é associado a ideais de pureza, delicadeza e agradabilidade. Por isso, a flatulência contradiz frontalmente esse ideal imposto, gerando um estigma ainda maior para as mulheres.
Os riscos de “segurar” a natureza
Embora a etiqueta peça discrição, o hábito de segurar gases com frequência pode trazer sérias consequências para a saúde. De acordo com a Dra. Vera Ângelo, o represamento dos gases pode causar:
Distensão abdominal e inchaço;
Cólicas intensas;
Refluxo aumentado;
Dissinergia pélvica: Quando os músculos pélvicos não relaxam corretamente, podendo levar à constipação crônica.
Quando buscar ajuda médica?
A flatulência em si não é doença. No entanto, a Dra. Vera alerta que o sinal de alerta deve ser ligado caso ocorram:
Dores constantes;
Inchaço excessivo e persistente;
Mudança brusca no padrão intestinal.
Uma etiqueta social madura: como lidar?
Normalizar a flatulência não significa incentivar a prática em qualquer lugar, mas sim “despatologizar” o corpo. O Prof. Claudio Paixão defende uma responsabilidade relacional: reconhecer que o corpo é real e inevitável, sem sacrificar o respeito pelo espaço alheio.
A solução ideal para esse imbróglio social é a autocontenção contextual: sentir a necessidade, pedir licença e dirigir-se ao banheiro para resolver a situação.
Conclusão: Aceitar que somos seres biológicos é o primeiro passo para uma convivência mais saudável. O peido pode ser um tabu, mas é, acima de tudo, a prova de que sua “máquina” interna está trabalhando a todo vapor.
Referências e Fontes Consultadas:
ABRITTA, Renata. Flatulência: um tabu social. Especial para o Jornal O Tempo / Interess@.
Especialistas consultados:
Dra. Vera Ângelo: Médica Gastroenterologista, Doutora em Patologia pela UFMG e especialista em saúde digestiva.
Prof. Claudio Paixão: Doutor em Psicologia Social e Professor da Escola de Ciência da Informação da UFMG.
Dra. Vera Ângelo
- Residência em Clínica Médica/Patologia Clínica pelo Hospital Sarah Kubistchek.
- Gastroenterologista pela Federação Brasileira de Gastroenterologia.
- Professora convidada da pós em Doenças Funcionais e Manometria pelo Hospital Israelita Albert Einstein.
- Mestre e Doutora em Patologia pela UFMG.
- Responsável técnica da Clínica NU.V.E.M. MEDICINA e ENSINO.
- Tutora de vários treinamentos em doenças funcionais e testes respiratórios.
- Autora de vários livros em Gastrenterologia, entre eles: Doenças Funcionais em Gastrenterologia 2025, Métodos Diagnósticos e Doenças Funcionais e Motilidade Digestiva 2025 e Manual Prático do Teste Respiratório do Hidrogênio Expirado 2019, todos da Editora Rubio.




