Flatulência: um tabu social entre a biologia e a convivência

Neste artigo, exploramos a visão médica e sociológica sobre os gases, com a ajuda da Dra. Vera Ângelo e do Prof. Claudio Paixão, para entender por que algo tão saudável ainda é motivo de tanta vergonha.
flatulência

flatulência é um processo natural, universal e inevitável do corpo humano. No entanto, apesar de sua normalidade biológica, ela frequentemente provoca um constrangimento social intenso, quase cômico. Esse embate entre as necessidades do “corpo cru” e as rígidas convenções da civilização é o que torna o tema um verdadeiro tabu.

O que a ciência diz: por que produzimos gases?

Ao contrário do que dita o senso comum, soltar gases é um sinal de que o seu corpo está funcionando corretamente. Segundo a Dra. Vera Ângelo, gastroenterologista e doutora em patologia pela UFMG, a flatulência indica que a sua microbiota intestinal está ativa, digerindo o que o estômago e o intestino delgado não conseguiram processar.

De acordo com a especialista, os gases provêm de duas fontes principais:

  1. Aerofagia: O ar que engolimos ao comer rápido demais, falar enquanto mastigamos, mascar chicletes ou beber com canudos.

  2. Fermentação Bacteriana: Ocorre no intestino grosso, onde bactérias processam carboidratos não absorvidos (como fibras e amidos resistentes).

A química do odor

A composição da maior parte dos gases é inodora (hidrogênio, metano e dióxido de carbono). O cheiro forte, muitas vezes comparado a “ovo podre”, vem dos compostos sulfurados. A Dra. Vera ressalta que dietas ricas em enxofre — que incluem ovos, alho, cebola, brócolis, carnes vermelhas e leguminosas como feijão e lentilha — aumentam drasticamente o odor.

O Tabu Social: Uma “falha de performance”

Se é biologicamente normal, por que nos sentimos tão mal quando acontece em público? O Prof. Claudio Paixão, doutor em psicologia social e professor da UFMG, explica que o peido é o símbolo perfeito da animalidade que tentamos esconder sob o “verniz social”.

Citando o sociólogo Erving Goffman, o professor afirma que a flatulência em público é vista como uma “falha de performance social”. Ao longo da história da civilização ocidental, funções corporais consideradas “animais” (como urinar, defecar e arrotar) foram relegadas ao espaço privado.

“A liberdade de expressar funções corporais naturais colide com o limite da convivência: o cheiro ou o som invadem o espaço sensorial alheio”, ressalta o Prof. Claudio Paixão.

O peso desigual para as mulheres

O tabu é ainda mais rigoroso para o público feminino. Historicamente, o corpo da mulher é associado a ideais de pureza, delicadeza e agradabilidade. Por isso, a flatulência contradiz frontalmente esse ideal imposto, gerando um estigma ainda maior para as mulheres.

Os riscos de “segurar” a natureza

Embora a etiqueta peça discrição, o hábito de segurar gases com frequência pode trazer sérias consequências para a saúde. De acordo com a Dra. Vera Ângelo, o represamento dos gases pode causar:

  • Distensão abdominal e inchaço;

  • Cólicas intensas;

  • Refluxo aumentado;

  • Dissinergia pélvica: Quando os músculos pélvicos não relaxam corretamente, podendo levar à constipação crônica.

Quando buscar ajuda médica?

A flatulência em si não é doença. No entanto, a Dra. Vera alerta que o sinal de alerta deve ser ligado caso ocorram:

  • Dores constantes;

  • Inchaço excessivo e persistente;

  • Mudança brusca no padrão intestinal.

Uma etiqueta social madura: como lidar?

Normalizar a flatulência não significa incentivar a prática em qualquer lugar, mas sim “despatologizar” o corpo. O Prof. Claudio Paixão defende uma responsabilidade relacional: reconhecer que o corpo é real e inevitável, sem sacrificar o respeito pelo espaço alheio.

A solução ideal para esse imbróglio social é a autocontenção contextual: sentir a necessidade, pedir licença e dirigir-se ao banheiro para resolver a situação.

Conclusão: Aceitar que somos seres biológicos é o primeiro passo para uma convivência mais saudável. O peido pode ser um tabu, mas é, acima de tudo, a prova de que sua “máquina” interna está trabalhando a todo vapor.

Referências e Fontes Consultadas:

ABRITTA, Renata. Flatulência: um tabu social. Especial para o Jornal O Tempo / Interess@.

Especialistas consultados: 

  • Dra. Vera Ângelo: Médica Gastroenterologista, Doutora em Patologia pela UFMG e especialista em saúde digestiva.

  • Prof. Claudio Paixão: Doutor em Psicologia Social e Professor da Escola de Ciência da Informação da UFMG.

Dra. Vera Ângelo

CRM 22284 MG | RQE 10411 | RQE 22736
 
  • Residência em Clínica Médica/Patologia Clínica pelo Hospital Sarah Kubistchek.
  • Gastroenterologista pela Federação Brasileira de Gastroenterologia.
  • Professora convidada da pós em Doenças Funcionais e Manometria pelo Hospital Israelita Albert Einstein.
  • Mestre e Doutora em Patologia pela UFMG.
  • Responsável técnica da Clínica NU.V.E.M. MEDICINA e ENSINO.
  • Tutora de vários treinamentos em doenças funcionais e testes respiratórios.
  • Autora de vários livros em Gastrenterologia, entre eles: Doenças Funcionais em Gastrenterologia 2025, Métodos Diagnósticos e Doenças Funcionais e Motilidade Digestiva 2025 e Manual Prático do Teste Respiratório do Hidrogênio Expirado 2019, todos da Editora Rubio.